quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Entrevista com Robson Caetano

Por: Lucas Nunes

Tive a oportunidade há uns meses atrás de entrevistar o ex-atleta, e atualmente comentarista de atletismo, Robson Caetano. Ele esteve na cidade onde resido para tratar de um projeto com a prefeitura e eu não pude deixar essa oportunidade passar. Muito simpático, respondeu a todas as minhas perguntas sem abster-se de nenhuma e em vários casos, fez piada. 
Foto: Divulgação
Como ele está em exposição na mídia devido a confirmação de sua participação no reality show "A Fazenda", da Rede Record de Televisão, decidi trazer novamente essa entrevista (ela já foi veiculada anteriormente no meu antigo blog, 'Cariocando EC').

Em pauta, estava a preparação para os Jogos Olímpicos de 2016, que serão disputados aqui no Rio de Janeiro, doping, recordes olímpicos e outros temas. Pois bem, peguem a pipoca, o refrigerante, e deliciem-se com essa bela entrevista!

Lucas Nunes: Como você está vendo a preparação dos atletas para os Jogos Olímpicos de 2016?

Robson Caetano: “A gente tem que pensar passo a passo. Primeiro a gente tem um Pan-Americano no Canadá [Jogos Pan-Americanos de Toronto-CAN 2015], e ali teremos um panorama do que vai acontecer no Rio em 2016. Não por conta da quantidade de medalhas, nada disso, mas muito por conta da proximidade. Nós estamos nas Américas, vai sair da América do Norte e vai vir aqui para a América do Sul com uma olimpíada e os resultados dos atletas que se destacarem, e ai não é um destaque qualquer; é um destaque com grandes resultados, grandes marcas. Em 2015 a gente tem que estar de olho neles, e aqueles que tiveram resultados mais ou menos, vamos dizer, medianos, ficar ainda mais atentos, porque esses em 2016 vão estar prontos para fazer grandes marcas. Então, é pensar a preparação passo-a-passo. Mas eu tenho visto os atletas muito focados e muito determinados a realizar uma boa competição, tenho certeza disso”.


LN: A gente sabe que o último recorde dos 100m rasos brasileiro é seu. A questão dele ser seu há mais de 25 anos, você julga isso como uma má preparação dos atletas que passaram e que continuam, ou uma "falta de sorte"?

RC: “Acho que falta um pouquinho só de consciência dos atletas que estão treinando hoje de que você precisa sempre pensar em se superar. Você não tem que pensar no adversário. Uma das coisas que tem acontecido de errado na preparação de alguns atletas é que eles estão pensando em competir em uma determinada época pra fazer resultado para participar de uma olimpíada. Nós temos recursos humanos suficientemente bons para estarem em uma competição competindo de igual pra igual com qualquer outro atleta, esse é o primeiro pensamento. O segundo pensamento é que recorde é uma consequência do trabalho. Tem aqui ó [nesse momento ele exemplifica apontando para um dos presentes na sala]: aquele cara ali era recordista dos 100m, e eu vim e bati um recorde que era dele, e ai a gente está esperando um outro vir e bater um recorde que hoje me pertence, mas eu acho que falta um pouquinho só, porque não é falta de talento, falta um pouco mais, acho, de entrega, um pouco mais de comprometimento com o próprio resultado. Tem atleta que chega no 10s05 ou 10s09 e ai fala assim: ‘ah, tá bom’. Isso porque com esse resultado o atleta consegue ir a qualquer competição internacional, e ai ele deixa de perseguir uma marca pessoal que possa levá-lo ao recorde pessoal ou um recorde sul-americano, que hoje me pertence”.

Foto: Divulgação

LN: Quanto à questão do doping; vários atletas que correram até mesmo abaixo dos 10s00 foram flagrados no doping recentemente. Como você vê essa questão?

RC: “Eu vou falar uma coisa que eu disse até outro dia, disse até numa entrevista; correr 10s00, ou correr abaixo dos 10s00, dói mesmo você estando muito bem preparado. Eu corri 10s00 duas vezes. 10s01, 10s02, 10s05, 10s06, várias vezes. Mas quando eu corri 10s00, que na verdade foi um 9s99 na Cidade do México, eu sentia meu corpo ‘pinicar’ de tanta força que você faz, isso porque é uma prova muito curta e você tem que produzir uma quantidade de hemácias, uma quantidade de energia muito grande pra você poder suportar essa carga numa prova de 100m. Em uma maratona, você distribui isso ao longo de 42 quilômetros, mas no 100m é tudo muito condensado. E eu sentia o corpo pinicando. Então se você não se prepara para correr isso, você começa a sentir uma debilidade, uma deficiência. O doping entra exatamente pra auxiliar o atleta mentalmente que ele pode fazer muito melhor. Claro que ajuda, auxilia, na recuperação, o atleta se recupera muito mais rápido, e ai, por exemplo, no meu caso, eu treinava forte em um dia e eu precisava de 48 horas pra poder estar bem disposto pro próximo treino forte. Um cara que se dopa ele treina hoje forte hoje, amanhã ele tá treinando forte, no outro dia ele tá treinando forte… As consequências desse trabalho são devastadoras, só que em um curto espaço de tempo ele consegue produzir resultados tão expressivos, que ele ganha tanto dinheiro, que ai ele não vai ficar preocupado em pensar nas consequências do que ele está fazendo. Claro que pode acontecer dele ser pego no doping, ou não. O Ben Johnson foi pego no doping, o Carl Lewis já não foi pego no doping, mas os dois tomaram, os dois fizeram a mesma coisa. O Linford Christie foi avisado de que seria pego no doping. Por isso ele queimou na olimpíada de 1996 [Jogos Olímpicos de Atlanta-EUA 1996]. Ele queimou e depois saiu rasgando a camisa e tudo mais, mas ele fez aquilo deliberadamente porque ele ia ser pego no doping, já tinham avisado a ele. Existem nos bastidores muitas coisas que muita gente não sabe, mas que a gente tem que estar muito atento pra não externar, por exemplo, pra não surgirem os falsos heróis. Hoje todo mundo tá falando muito do Usain Bolt. Se você me perguntar: ‘o Usain Bolt tá limpo?’, não sei. Eu sei de mim, tive o começo, meio e fim de carreira sem colocar uma substância proibida, uma substância estranha no corpo. Então, eu acredito que o doping ele tenha a tendência de ser banido do esporte. A gente vai conseguir eliminar, minimizar muito; eliminar não, mas minimizar bastante o doping. Existem os dopings fora de época, que deixam o atleta mais preocupado, e isso já nos dá um quadro muito mais positivo em relação ao doping.



LN: Você possui alguma frustração por não ter conseguido o ouro olímpico, ter tentado três vezes…

RC: “Não, não, não… Existe uma sequência de fatores que te levam ao ouro olímpico. E um desses fatores ele me prejudicou muito; fator ‘Brasil’. Infelizmente eu sou obrigado a dizer isso. Treinar no Brasil, estar no Brasil, me alimentar no Brasil, isso me deixou em desvantagem em relação a outros atletas que tinham a mesma capacidade. Pra você ter uma ideia, por exemplo, até a Índia tem universidades entre as 20 melhores do mundo, o Brasil não tem. Se, na educação, no mundo acadêmico, você não tem isso, o que dirá os profissionais que saem dali pra te preparar. É claro que os profissionais que estiveram comigo fizeram cursos fora do Brasil, Carlos Alberto Cabreiro, Carlos Alberto Lanceta, Nelson Rocha, Sônia Rissetti, que me iniciou no esporte junto com o profº Aílton da Conceição, pessoas fantásticas que tiveram cursos fora do Brasil, aprenderam fora do Brasil, exceto a Sônia, mas ela tinha um apoio muito grande do profº Aílton, e tudo isso me levou ao máximo que eu poderia chegar, que era uma medalha de bronze, quiçá uma medalha de prata. Uma medalha de ouro seria a glória? Show. Seria maravilhoso. Mas, para fazer uma comparação, atletas que se destacaram e saíram do mesmo projeto chamado ‘Pentatlo Nacional’: Robson Caetano e Joaquim Cruz. O Joaquim Cruz foi pros Estados Unidos treinar: medalha de ouro. Eu fiquei aqui no Brasil treinando: medalha de bronze. Pra ficar bem claro, bem explicado.”



LN: Quanto ao Célio de Barros (Estádio de Atletismo no RJ), que teve uma polêmica muito grande quanto à demolição, como você vê essa questão toda hoje?

RC: “O Célio de Barros, ele, em princípio, ia ser totalmente demolido, mas o Governo do Estado junto com a Prefeitura do Rio, mas eles entenderam que o ali existe uma história muito grande. E eu tenho que ressaltar o trabalho de uma pessoa de enorme valor, um profissional que hoje trabalha a frente de uma federação, que é o dr. Carlos Alberto Lanceta, e que lutou – e luta – muito para que o Célio de Barros não acabe, para que essa história não se perca. Outras pessoas, lideradas por ele, fizeram uma corrente super positiva, uma corrente de abraço mesmo ao Célio de Barros, e a gente acompanhou tudo isso, e é realmente enaltecer o trabalho que ele está fazendo, porque graças a esse trabalho de força-tarefa, de estar integrado às pessoas, trazer profissionais do esporte pra dar a sua palavra e seu depoimento, como Joaquim Cruz, Maurren Maggi, fez com que o governador do estado (Sérgio Cabral Filho, na época) ficasse sensibilizado e a partir desse momento ele decidisse que o Célio de Barros não seria mais demolido. Eu fiz um agradecimento até pessoal ao governador do estado do Rio de Janeiro, mas isso é só mais um ‘pontinho’ nessa reticência de trabalho que se alonga. A tendência é que agora o Célio de Barros seja transformado em um estádio novo e pronto para realizarmos competições e treinamentos de atletismo”.


LN: Quanto ao próprio atletismo aqui no Rio de Janeiro, antigamente você ouvia falar da própria Gama Filho (faculdade), e trazendo um pouquinho o futebol, os quatro grandes clubes do RJ (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco) tinham o atletismo no seu cartel de esportes e hoje, se tem, tá muito enfraquecido. Você acha que falta o que para que se fortaleça esse trabalho?

RC: “Faltam mais profissionais como Edileuza, como Nelson Rocha, como Geraldo Aloísio, Geraldo Pegado, pessoas que amam o atletismo, que fazem o atletismo e que trabalham no atletismo independente de qualquer coisa. Pessoas como uma Domiciana, a própria Luz Marina, como Robson Maia, que são amantes desse esporte e fazem muito por ele, mas esse muito ainda é pouco. Então a gente precisa de mais profissionais engajados na causa do atletismo, ou melhor, vou abraçar um pouco mais as coisas; esporte olímpico. O esporte olímpico no Brasil hoje, ele tá, ao meu modo de ver, ele tá muito mercantilista. Nós temos que colocar um pouco mais de amor na coisa. O ‘molho’ de tudo isso é o amor pelo esporte, mas não somente pelo esporte, porque quem faz o esporte não sou eu mais, não é você, são os atletas. E ai a gente tá empregando, talvez a gente esteja empregando pouca sensibilidade no treinamento dos atletas, pouco amor no trabalho desses atletas, porque é desse amor, dessa sensibilidade, que surgem os grandes atletas, os grandes profissionais. Não dá pra você ter 30, 40 e dar amor pra todos; tenha 2, 3, dê amor pra esses três e faça deles grandes campeões. Exemplo; Joaquim Cruz e o técnico dele foram para os EUA. Treinaram, trabalharam, o técnico do Joaquim abraçou ele como um filho. Trabalhou, criou, cuidou dele, e o Joaquim deu uma medalha de presente pra ele. Uma não, duas, uma de prata e uma de ouro. Eu tive grandes profissionais trabalhando comigo, muitos profissionais, e nos últimos 15 anos de carreira foi com um cara chamado Carlos Alberto Cavaleiro. Que essa pessoa, esse cara, foi que deu o toque final para que eu pudesse chegar na medalha, que sem ele, sem a nossa ida para os EUA efetivamente depois da medalha, em 1988, a gente não teria a chance de ir a quatro jogos olímpicos. Então, todos eles, o que falta de repente, é isso, é esse amor, essa entrega, que existe, mas esse muito que está sendo feito ainda é pouco”.


LN: Quanto à política, você tem algum engajamento político ou não?

RC: “Eu não posso dizer que sou apolítico, nós temos que ter um posicionamento. Hoje eu sou centro. Eu não tendo nem pra esquerda, nem pra direita. O que eu quero é que o país seja justo com o povo, que os governantes sejam justos com as pessoas que estão ali fora. O ponto de ônibus tá ali e um sol de 40ºC, e tem uma senhora pegando um sol de 40ºC, vamos ajeitar isso. Não tem uma ciclovia, vamos ajeitar uma ciclovia, porque tem jovens para andar de bicicleta. Olha aonde os jovens estão andando de bicicleta; em cima da calçada, no meio da rua, não pode. Então eu paro com isso. Se você perguntar se eu quero ser deputado, vereador… Não! Eu não quero. Mas pode ser que em um determinado momento, por aclamação, as pessoas disserem assim: ‘Robson, teu discurso é tão legal, tem ideias tão maravilhosas, você pensa direitinho, você é um cara de um coração sensacional, que tal a gente… Vamos colocar você lá’. Ai eu falo assim: ‘Se é pra representar vocês, eu vou’. Agora, eu não vou representar canalha, ladrão, bandido, traidor, vagabundo, não vou… Vou com aqueles que olhem pra mim e falem assim: ‘Oh, você tá me liderando. Tô vendo você na frente do barco falando assim: vamos aqui! E vamos nessa, vamos juntos’”.

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